Meio dia sem pressas, um carro alugado e as paisagens menos «Lanzarote» de Lanzarote: é a volta ao norte. Sobe de Teguise passando pelo parque eólico até ao Mirador de Haría, espreita para o «vale das mil palmeiras» — Haría, a aldeia branca afogada em palmeiras canárias — e desce para um café e para as lojas de artesanato (sábado: o mercado artesanal; qualquer dia: a última casa de Manrique, hoje museu, com o atelier tal como ele o deixou). Segue para norte por Máguez até ao Mirador de Guinate, a versão tranquila da famosa vista da falésia; depois contorna a coroa do vulcão de La Corona até Yé, o Mirador del Río se quiseres o clássico de Manrique, e desce a Órzola para comer peixe. Vales verdes, vistas de mil metros, praia zero. A outra personalidade da ilha, antes da hora de almoço.
Toda a gente conhece o Lanzarote do sul: campos negros, montanhas do fogo, vinhas em cinza. O norte funciona com outro software. As nuvens do alísio ficam presas no maciço de Famara e nas alturas de La Corona e espremem a humidade exacta para haver verde a sério — e o vale de Haría recolhe-a toda na paisagem mais surpreendente da ilha: uma aldeia branca a flutuar no maior palmeiral de Lanzarote, as lendárias «dez mil palmeiras» (aqui dizem mil, os poetas dizem dez mil, e as palmeiras recusam-se a deixar-se contar). A tradição plantava uma palmeira por cada criança que nascia — duas por um rapaz, uma por uma rapariga, diz a velha fórmula que a aldeia hoje discute encantada — e o resultado, visto dos miradouros, lê-se como um oásis pintado no hemisfério errado.
Faz o circuito no sentido dos ponteiros do relógio, por causa da luz. De Teguise, a LZ-10 sobe ao Mirador de los Valles e depois ao Mirador de Haría, onde o vale de palmeiras se abre em baixo e o mar brilha ao fundo — vale dez minutos e trinta fotografias. Desce até à própria Haría e abranda a sério: praça debaixo de árvores velhas, mesas de café, oficinas de artesanato e os dois tesouros calados da terra — o mercado artesanal de sábado, o melhor da ilha em coisas feitas mesmo aqui, e a Casa-Museo César Manrique: a última casa do artista, deixada quase intacta, com o atelier ainda a guardar a tela por acabar e os pincéis — o mais íntimo de todos os sítios de Manrique e o menos concorrido (as grandes obras públicas dele têm card próprio; este é o capítulo privado).
Continua para norte por Máguez, aldeia de trabalho e de verdade, rumo às cumeadas verdes sob o vulcão de La Corona — cuja volta ao bordo da cratera é a melhor caminhada curta do norte e cuja erupção antiga construiu o tubo de lava que deu fama à Cueva de los Verdes e aos Jameos (essa geologia tem os seus cards). O Mirador de Guinate é o aperto de mão secreto da rota: quase a mesma vista descomunal sobre o estreito, La Graciosa e as ilhas do Chinijo que o famoso Mirador del Río, um pouco mais a norte — mas por construir, sem bilheteira e partilhada quase sempre com mais ninguém a não ser o vento. Os puristas fazem os dois: Guinate pela solidão, o Mirador del Río de Manrique pela arquitectura (aquele edifício encaixado na falésia é metade do assunto).
Fecha o círculo a descer por Yé — terra de vinhas em encostas vulcânicas, as mais altas e frescas da ilha — até Órzola, a aldeia do ferry para La Graciosa, onde a volta ganha o almoço: peixe junto ao cais, as enseadas brancas do Caletón Blanco (card 76) cinco minutos a sul e, nos crepúsculos de Verão, o chamamento inquietante das cagarras a caminho das colónias do Chinijo (card 74). Quilómetros ao volante: quarenta a custo. Zonas climáticas: umas quatro. Melhor dia: qualquer manhã em que o sul acorde turvo — aqui em cima, essa mesma calima costuma pôr os vales dourados em vez de cinzentos. O norte não grita. É o quarto tranquilo da ilha, e abre todos os dias.
