As enseadas de Papagayo são o poster da ilha — meias-luas de areia dourada sob pontas ocres, água de Caraíbas engarrafado — e toda a gente sabe, que é justamente o problema a resolver. O plano: vem antes das dez ou depois das cinco (além disso a luz é melhor); paga sem resmungar a pequena portagem de carro para entrar no espaço natural de Los Ajaches, que é o que mantém a costa por construir; salta os primeiros parques e faz o trilho da arriba, porque cada enseada tem o seu carácter — Mujeres larga e fácil, La Cera minúscula, Papagayo o anfiteatro de postal, Caleta del Congrio mais selvagem (e de roupa opcional); leva água e sombra, porque há um chiringuito por cima de Papagayo e mais nada; e faz snorkelling pelas bordas rochosas, o ver-peixes mais tranquilo da ilha. No Verão, pondera chegar de caiaque ou a pé pelo passeio de Playa Blanca. As mesmas enseadas, outro século.
Papagayo ganha a fama com honestidade: a ponta sul da ilha curva-se formando uma tigela abrigada onde os alísios quase sempre passam ao lado, a ondulação raramente chega e um enfiado de enseadas vai recolhendo areia dourada pálida entre pontas cor de ferrugem. A água sobre aquela areia faz o truque do turquesa melhor do que em qualquer outro sítio de Lanzarote, e o conjunto inteiro fica dentro do Monumento Natural de Los Ajaches — as montanhas mais velhas da ilha, gastas até ao osso elegante —, que é a razão de não haver um único hotel no horizonte. Essa ausência é o luxo. A pequena taxa por veículo na barreira do parque é o que a paga: paga-a como quem tira um passe de época para a vista.
A jogada do entendido é tratar Papagayo como sete praias, não como uma. De oeste para leste: Playa Mujeres, a grande e simpática, a mais perto do primeiro parque, a mais fácil com crianças e tralha. Playa del Pozo, larga e quase sempre mais sossegada. Playa de la Cera, um bolso entre falésias, pura intimidade. A própria Playa del Papagayo, o ícone — um anfiteatro dourado entre duas pontas com os chiringuitos no alto; a primeira a encher, a primeira a aparecer no teu feed. E passada a ponta grande, Puerto Muelas e Caleta del Congrio, mais longas, mais selvagens, com a zona de campismo por trás — naturistas por costume e por placa, esplendidamente na sua. O trilho de cima liga tudo em minutos que se fazem até de chinelos; dez minutos de caminhada compram-te, sem falhar, oitenta por cento menos vizinhos.
O horário ganha a tudo o resto. Antes das dez, as enseadas são de quem se banha e a luz penteia rasante as pontas; o meio-dia é da frota dos recém-chegados; a partir das cinco a maré de gente baixa, a água guarda o calor e as arribas põem-se de cobre — as duas melhores horas do dia de Papagayo. As regras do vento que arrasam noutros sítios aqui mal se aplicam — este é o canto de sotavento da ilha —, mas nos dias de sul forte a magia inverte-se: vê a previsão antes de pegares no carro.
Logística, com afecto: a pista de acesso é de terra batida, boa para qualquer carro, poeirenta só para os egos. De serviços há um chiringuito alegre por cima da enseada de Papagayo e basicamente mais nada — leva água, comida e a tua própria sombra, e leva de volta até ao último vestígio (a limpeza do parque é uma conquista colectiva, não um serviço). O snorkelling ao longo dos flancos rochosos de cada enseada é o mais manso da ilha — viejas, sargos e alguma raia sobre a areia. As alternativas desportivas saltam o carro por completo: o trilho costeiro do passeio leste de Playa Blanca chega a Mujeres em menos de uma hora de caminhada fácil, e os alugueres de caiaque ou de paddle surf (têm card próprio) transformam a baía inteira na tua rota. E um pedido da paisagem: as encostas por trás das praias são crosta frágil de montanha velha — não saias dos trilhos, não montes montinhos de pedras, leva só o bronzeado. As enseadas sobreviveram a séculos de admiradores graças a um único truque: cada um deixá-las exactamente como as encontrou. Ser sócio não custa nada; comporta-te em conformidade.
