Primeiro mistério resolvido: a gente de Lanzarote são conejeros — «gente de coelhos», muito provavelmente pela velha abundância de coelhos da ilha — e levam a alcunha com um sorriso. Aprende dez palavras e abrem-se-te portas. A guagua é o autocarro (diz «uá-uá»). Chacho/chacha — de muchacho — começa metade das frases da ilha; ¡chos! é espanto puro de Lanzarote. Um fisco é um bocadinho («un fisco de queso»). Godos são os espanhóis do continente (com troça, quase sempre carinhosa). Enarenado é o cultivo sob manto de cinza, rofe ou picón é o próprio gravilhado vulcânico, o jable é o corredor de areia. Papas, não patatas; millo, não maíz. E «te vas a la playa, ¿no?» acaba naquele «¿no?» ascendente que transforma tudo numa pergunta simpática. Experimenta-as. O espanhol das Canárias é suave, musical e alérgico a pressas — como a ilha.
O espanhol das Canárias tem música própria — mais perto, na melodia, de Havana do que de Madrid, e não é por acaso: as ilhas abasteceram as Américas de emigrantes durante quatro séculos, e os sotaques foram e vieram como os barcos. O s no fim da sílaba afrouxa até ficar um sopro, o z soa como s (nada do «th» peninsular por aqui) e ustedes substitui vosotros — gramaticalmente cortês, socialmente universal. Se falas o espanhol dos manuais, percebes tudo; se afinares o ouvido, ouves lá dentro o Atlântico.
Agora o léxico, por ordem de utilidade. Guagua (autocarro) é a insígnia — Cuba e as Canárias partilham-na, e os linguistas ainda discutem em que direcção é que ela viajou. Chacho e chacha são o arranque para tudo, algures entre o «pá» e o «caramba»: «¡Chacho, qué calor!». ¡Chos! é a exclamação de surpresa própria desta ilha — Lanzarote e Fuerteventura usam-na onde Tenerife diz ¡ños! — e soltar um chos bem colocado vale-te um olhar encantado de quem se vira para trás. Fisco é uma pitada; fleje (da fita de aço flexível, vê lá tu que origem) é um montão: «un fisco de mojo, un fleje de papas». Godo é a palavra às vezes com espinho, quase sempre de troça, para os espanhóis do continente — o contexto é tudo. E o enyesque é aquele algo que se belisca com a bebida: queijo, azeitonas, lapas.
As palavras do campo são um dialecto dentro do dialecto e metade delas está na ementa dos cards de paisagem: enarenado (os campos cobertos de cinza), rofe e picón (o próprio gravilhado vulcânico — as drogarias vendem-no ao saco), jable (o corredor de areia soprada pelo vento, do francês normando sable — um fóssil da conquista de 1402), zoco (a meia-lua de pedra que guarda cada cepa), maretas e aljibes (as bacias de recolha e as cisternas dos séculos de sede), gavias aqui ao lado, em Fuerteventura. A comida acrescenta papas, millo (milho) e o lindíssimo vocabulário do puchero; o mar traz os nomes dos peixes — vieja, cherne, sama — que dicionário nenhum traduz bem.
Dois adornos para terminar. Mi niño / mi niña — «meu menino» — é calor de série aplicado a clientes de qualquer idade; seres tratado por mi niño por um empregado três vezes mais novo do que tu é um rito de passagem canário, e quer dizer que a coisa vai bem. E o próprio ritmo: as frases acabam numa subida suave, «ahora» quer dizer «daqui a um bocado», e «ya vamos viendo» — vamos vendo — tem menos de procrastinação do que de filosofia. Aprende as palavras, claro. Mas se só aprenderes o ritmo, já aprendeste o que importa.