A coisa mais antiga em que vais tocar em Lanzarote não está num museu: é a montanha gasta e elegante que há por trás das enseadas de Papagayo. Los Ajaches são o maciço fundacional da ilha — lavas que remontam a uns catorze milhões de anos, erodidas desde ambições alpinas até ficarem em lombos ocres e suaves e vales secos e fundos. As entradas clássicas: a caminhada de crista a partir de Femés, a aldeia branca encaixada na garganta (a varanda dela sobre Playa Blanca já é por si só uma vista digna de card), rumo ao Pico Redondo e às alturas sobre o mar; ou os vales costeiros — barrancos com nomes como Parrado e Higuera — que descem o caminhante até enseadas vazias que os de carro nunca veem. Veredas velhas de cabras, pedras com líquenes, falcões, silêncio. Calçado a sério, água a sério. Esta é a ilha antes do fogo de artifício — e envelheceu magnificamente.
Timanfaya leva a fama por ser jovem; Los Ajaches merecem respeito por serem os primeiros. Juntamente com o maciço de Famara, no norte, estas alturas do sul são um bloco fundacional da ilha — parte do escudo que emergiu do Atlântico há uns catorze a quinze milhões de anos (o card da certidão de nascimento da ilha conta essa história de tempo profundo). Tudo o que tinham de dramático já aconteceu: os picos em cru arredondaram-se, os barranquinhos aprofundaram-se, e as superfícies ganharam aquela pátina leonina, de pele de leão, que só dezenas de milhares de milénios de vento e chuva ocasional conseguem polir. Os geólogos apreciam o maciço como um livro aberto de anatomia de ilha velha; os caminhantes levam algo mais simples — o único sítio de Lanzarote que sabe a montanha a sério, a minutos das zonas turísticas.
Femés é a porta de entrada e o aperitivo. A aldeia assenta numa garganta a uns 350 metros entre a Atalaya e o Pico de la Aceituna, casas brancas à volta de um dos sítios religiosos mais antigos da ilha — a humilde Ermita de San Marcial del Rubicón, herdeira da catedral do sul do tempo da conquista (o card de 1402 conta porque é que um bispado calhou a este canto seco). A varanda da praça pende sobre toda a planície sul: Playa Blanca estendida lá em baixo, Fuerteventura e Lobos a flutuar do outro lado do estreito — ao poente, uma das grandes bancadas gratuitas da ilha, com dois restaurantes modestos a servir queijo das cabras do próprio bairro.
A ementa de caminhadas é variada e honesta. A clássica de crista sobe de Femés pela velha vereda de pastores rumo ao Pico Redondo e à linha alta sobre a costa — vistas longe para os dois lados, corvos e peneireiros abaixo da altura dos teus olhos, duas a três horas sem pressas de ida e volta. A travessia desce das alturas para o Barranco de Parrado ou para os seus irmãos, vales secos de paredes de pedra quente que te encaminham até aos extremos sossegados da costa de Papagayo (card 79) — um plano de ida brilhante, com um banho por destino e um táxi ou um carro deixado antes como logística. As opções mais suaves contornam as saias do maciço a partir da borda de Playa Blanca ou de Las Coloradas. Em toda a parte o mobiliário é o mesmo: socalcos abandonados e currais de pedra dos séculos das cabras, líquenes a pintar as faces norte (o card dos pioneiros da vida explica essas crostas), aulagas e salvas cheirosas, e uma qualidade de silêncio que, curiosamente, os campos de lava jovem não têm — o deles é inquietante; este é de paz.
Notas de campo: os trilhos são velhos e quase todos sem sinalização — uma aplicação de mapas com o percurso descarregado é a tua melhor amiga; não há água nenhuma nem sombra nenhuma, portanto a norma é sair de manhã e levar dois litros; o piso tem troços de pedra solta — sapatilhas no mínimo, botas melhor; e o maciço está protegido como monumento natural: nada de atalhos pelas encostas, nada de montar montinhos de pedras, cancelas fechadas atrás de ti onde ainda pastam rebanhos. Os Ajaches não actuam. Simplesmente lembram — e uma manhã lá em cima recalibra a ilha inteira: o fogo de artifício de Timanfaya é a juventude; isto é a longa e tranquila maturidade com que todo o vulcão sonha.
