Entre Teseguite e Guatiza, a um passo da estrada, espera a galeria gratuita mais estranha da ilha: a Cidade Estratificada — um afloramento de cinza vulcânica compactada que o vento e as chuvas raras esculpiram em arcos, bolhas, colunas e paredes de favo, como uma cidade em ruínas desenhada por Gaudí e abandonada pelos fantasmas. Os geólogos leem ali tufos em camadas que se erodem a velocidades diferentes; os fotógrafos leem as melhores texturas da ilha; quase todos os outros passam ao largo. Dez minutos a vaguear pelos corredores de areia entre as formações dão espanto do bom — o nascer do sol e o fim da tarde cavam as sombras mais fundas. É material frágil: subir aos arcos parte em anos o que levou milénios. Olha, fotografa e deixa só pegadas nos corredores de areia. O vento continua a trabalhar; tenta não interromper o artista.
Toda a ilha tem paisagens que ficaram famosas e paisagens que tiveram sorte. A Cidade Estratificada teve sorte: nem centro de visitantes, nem parque de autocarros, nem sequer uma placa em condições — só um grupo de rochas pálidas e estratificadas a erguer-se da planície a sul de Guatiza, à vista da estrada, com formas que te fazem travar e fazer marcha-atrás.
O material é tufo vulcânico — camadas de cinza e lapilli das erupções antigas da zona, compactadas em pedra mole e depois cobertas pelas areias do corredor do jable (esse card explica a auto-estrada de areia). Depois a erosão assumiu a direcção da obra: os alísios jacteiam os afloramentos com grão fino, as chuvas raras mas violentas dissolvem e minam, e as diferentes camadas — umas mais duras, outras mais moles — respondem a ritmos diferentes. O resultado são os grandes êxitos da erosão diferencial: arcos-janela, chapéus de cogumelo sobre pés finos, paredes furadas em favo (a palavra bonita dos geólogos é tafoni), taças lisas e nervuras góticas, tudo em tons que vão do creme ao ferrugem e mudam a cada hora de luz. «Cidade Estratificada» é a alcunha que pegou — de longe, o perfil lê-se mesmo como torres e becos em ruínas — e o sítio tem a emoção calada do que não foi formatado para o visitante: estacionas em terra batida, vagueias, decides a tua própria rota entre os «edifícios».
O ofício da visita: aqui a luz é tudo — o sol baixo da manhã ou do fim da tarde penteia as camadas e torna tridimensional o afloramento inteiro; o meio-dia achata-o em bege. O vento é o escultor residente e vai estar cá; um casaco leve e cuidado com a objectiva (areia finíssima) são boa ideia. O chão entre as formações é de corredores de areia e mato baixo — aulagas e almofadas tolerantes ao sal que os cards de botânica celebram — com algum lagarto a posar nas saliências. E a fragilidade é real, não retórica: isto é rocha mole, talhada com paciência geológica, e cada arco escalado e cada inicial gravada são vandalismo permanente. O pacto local não escrito que mantém estes sítios sem vedações é simples — não há barreiras enquanto ninguém obrigar a pô-las. Sê tu o motivo de continuar assim.
Combina-a com cabeça: o Jardín de Cactus fica cinco minutos a norte, em Guatiza (a última grande obra pública de Manrique — o card dele trata disso), as tuneiras de cochinilha em redor contam a história do corante vermelho, e Teguise (card 81) está dez minutos a oeste — juntos fazem a melhor meia jornada de «pequenas maravilhas» da ilha. A Cidade Estratificada vai ser aquela que contas aos outros, precisamente porque a ti ninguém ta contou. Há paisagens que são monumentos. Esta é um boato — e é verdade.
